Na capital da Somália, Mogadíscio, confrontos armados intensos ocorreram após o agravamento das disputas políticas relacionadas ao adiamento das eleições no país. A situação se deteriorou após o término do mandato do presidente Hassan Sheikh Mohamud em 15 de maio, que foi prorrogado por mais um ano, decisão contestada pela oposição por considerá-la inconstitucional. Em resposta, a oposição convocou protestos para o dia seguinte, gerando uma escalada de violência.
Durante a noite, moradores relataram troca de tiros em vários bairros da cidade, com relatos de uso de armas pesadas e ataques com morteiros. A polícia local informou que está realizando uma operação de segurança em larga escala para conter milícias armadas que teriam lançado ataques com morteiros em diferentes áreas da capital.
A Somália não realiza eleições diretas desde 1969, e o país enfrenta uma guerra civil prolongada há mais de três décadas. O ex-primeiro-ministro Hassan Ali Khaire afirmou ter sido alvo de ataques das forças governamentais enquanto se preparava para liderar manifestações pacíficas contra a prorrogação do mandato presidencial. Ele responsabilizou o presidente pelo uso da força e pela supressão do direito à manifestação pacífica.
Testemunhas relataram que uma casa foi atingida por um morteiro, ferindo uma mulher, e que outra residência de grande porte foi incendiada durante os confrontos. Até o momento, não há informações precisas sobre o número de vítimas, e o presidente Mohamud ainda não se pronunciou sobre o ocorrido.
O ex-presidente Sharif Sheikh Ahmed, aliado da oposição, declarou que as ameaças não intimidarão os manifestantes e que não pretendem recuar diante da repressão. Apesar dos confrontos, os protestos previstos não foram realizados, e a cidade apresenta relativa calma, com disparos esporádicos ainda sendo ouvidos em alguns bairros.
As autoridades da aviação civil da Somália negaram que a violência tenha afetado as operações no Aeroporto Aden Adde, assegurando que todos os voos programados estão ocorrendo normalmente.
A embaixada dos Estados Unidos em Mogadíscio classificou os episódios de violência como irresponsáveis e ressaltou que os líderes políticos têm a responsabilidade de manter a estabilidade e resolver as divergências por meios pacíficos. O bloco regional IGAD condenou todos os atos violentos e pediu moderação e diálogo entre as partes. A Delegação da União Europeia no país também enfatizou a importância de priorizar os interesses nacionais e buscar um consenso sobre o calendário eleitoral em benefício da população somali.
Mohamud foi eleito pelo parlamento em 2022, derrotando o então presidente Mohamed Abdullahi Mohamed, conhecido como Farmajo. Seu mandato anterior, entre 2012 e 2017, foi marcado pela luta contra o grupo jihadista al-Shabab, que ainda controla vastas áreas do território somali.
Após o fim do mandato, o governo federal e a oposição iniciaram negociações que não resultaram em acordo. O presidente tem buscado avançar para eleições democráticas diretas, substituindo o sistema atual, no qual líderes de clãs escolhem membros do parlamento, que por sua vez elegem o presidente.
A oposição discorda do modelo proposto para as eleições diretas e rejeita a emenda constitucional que estendeu o mandato presidencial por mais um ano. Além disso, questiona a legitimidade das novas leis sobre partidos políticos e a nomeação dos comissários eleitorais, alegando que esses processos não foram inclusivos e podem comprometer a transparência e a justiça do pleito.
Esses eventos destacam a fragilidade do processo político na Somália e a dificuldade em avançar para uma governança estável e democrática. A continuidade dos confrontos pode agravar a insegurança na capital e dificultar ainda mais a realização de eleições legítimas, essenciais para a pacificação do país.
A situação exige atenção das autoridades locais e da comunidade internacional para evitar uma escalada maior da violência e buscar caminhos para o diálogo e a resolução pacífica dos impasses políticos. O próximo passo provável será a retomada das negociações entre governo e oposição, com pressão internacional para que se alcance um acordo que permita a realização das eleições dentro de um calendário definido e aceito por todas as partes.