A Bélgica enfrenta uma crise crescente de superlotação em suas prisões, refletindo um problema que afeta diversas nações europeias. Com 13.733 detentos em 39 unidades prisionais, o país ultrapassa sua capacidade oficial de 11.064 vagas, conforme dados recentes da direção-geral de prisões. Essa situação tem provocado um agravamento significativo das condições carcerárias, prejudicando tanto os detentos quanto os agentes penitenciários.
Bilal, um preso de 34 anos que cumpriu pena em cinco estabelecimentos diferentes no país, relata experiências em celas de apenas 9 metros quadrados, onde conviviam três a quatro detentos. Ele destaca a propagação de doenças como escabiose, infestação por percevejos e monkeypox, além do desgaste físico e mental dos guardas prisionais. Segundo ele, as atividades externas e o tempo fora das celas foram reduzidos ao longo da última década, intensificando o isolamento dos presos.
A superlotação é acompanhada por uma escassez crítica de funcionários, o que dificulta a manutenção de um sistema que deveria focar na reintegração social dos detentos. Em maio, 754 presos dormiam em colchões no chão, número que aumentou em relação a dezembro do ano anterior. A situação é especialmente grave para presos provisórios, que passam até 23 horas diárias confinados em espaços restritos, sem acesso adequado a cuidados médicos, que podem levar meses para serem disponibilizados.
O aumento da população carcerária está relacionado a mudanças recentes na política penal belga, incluindo a decisão de 2023 que impôs o cumprimento integral de penas de até três anos, antes cumpridas principalmente por monitoramento eletrônico. A duração média das penas também cresceu, chegando a quase 10 meses, e a taxa de detenção provisória está acima da média europeia, atingindo 32% dos presos.
Em resposta à crise, o parlamento belga aprovou em julho do ano passado uma lei emergencial que incentiva alternativas penais para sentenças curtas e permite a liberação antecipada de detentos com penas de até dez anos. O governo também planeja a instalação de unidades modulares e reformas em presídios existentes enquanto novas instalações são construídas. No entanto, especialistas alertam que ampliar a capacidade prisional pode aumentar a população carcerária, sem resolver as causas subjacentes do problema.
Além disso, a Bélgica busca acordos para transferir presos sem autorização de residência para outros países, como Estônia, Kosovo e Albânia, em uma tentativa de aliviar a superlotação. Esses acordos já são praticados por outros países europeus, como Suécia e Dinamarca, mas levantam questões éticas sobre os direitos e o bem-estar dos detentos.
Organizações da sociedade civil e especialistas defendem uma mudança de foco para a reintegração social, com maior uso de penas alternativas e programas de apoio aos ex-presidiários. A alta taxa de reincidência, estimada entre 60% e 70%, evidencia a necessidade de políticas que preparem os presos para a vida fora do sistema carcerário.
Bilal, atualmente estagiando como treinador de futebol por meio de uma ONG que auxilia na reinserção social, e Loic, que realiza trabalhos externos, são exceções em um sistema que ainda enfrenta desafios para oferecer oportunidades reais de reabilitação. A continuidade da superlotação e das condições precárias pode perpetuar ciclos de criminalidade e dificultar a integração dos ex-detentos na sociedade.
A crise nas prisões belgas reflete um problema mais amplo na Europa, onde o aumento da população carcerária pós-pandemia e políticas penais rigorosas têm pressionado sistemas já sobrecarregados. A busca por soluções eficazes passa pela combinação de reformas legislativas, investimentos em infraestrutura e programas sociais que priorizem a prevenção e a reinserção, evitando que o encarceramento se torne um mecanismo que apenas perpetua a exclusão social.
Em termos estratégicos, a situação na Bélgica pode servir de alerta para outros países europeus que enfrentam desafios semelhantes. A pressão sobre o sistema prisional pode impactar a segurança pública, a saúde dos detentos e a estabilidade das instituições responsáveis pela execução penal. A adoção de políticas integradas que contemplem justiça, saúde e assistência social será fundamental para mitigar os efeitos da superlotação e promover um sistema mais humano e eficiente.
O cenário futuro dependerá da capacidade do governo belga e das autoridades europeias de implementar reformas estruturais que equilibrem a necessidade de segurança com os direitos humanos e a eficácia da reintegração social. A continuidade das práticas atuais pode agravar a crise, enquanto abordagens inovadoras podem contribuir para a redução da população carcerária e a melhoria das condições de encarceramento no continente.