Donald Trump assumiu a presidência dos Estados Unidos com a missão de restaurar a grandeza americana e reverter o que considerava um período de deriva estratégica nas últimas décadas. Inicialmente, a abordagem de Trump e seus aliados do movimento MAGA (Make America Great Again) focava na concentração nacional e na contenção, propondo uma política externa pragmática e orientada por interesses econômicos, em contraste com o liberalismo global e a agenda progressista que dominavam o cenário internacional.
A estratégia inicial previa que os Estados Unidos priorizassem seus interesses domésticos, reconhecendo a multipolaridade do sistema internacional e aceitando a existência de outras grandes potências com as quais seria necessário negociar. A ordem de prioridades estabelecida colocava o próprio território americano em primeiro lugar, seguido pelo Hemisfério Ocidental, depois a China e, por fim, o restante do mundo. A ênfase seria na geo-economia, enquanto desafios de segurança como imigração ilegal e tráfico de drogas ganhariam destaque. A China era vista principalmente como um competidor tecnológico e econômico.
Trump prometeu soluções rápidas para conflitos internacionais, incluindo a crise na Ucrânia, apresentando-se como um presidente pacificador. Durante seu segundo mandato, adotou medidas agressivas, como a imposição de tarifas contra diversos países, acusando-os de se beneficiarem às custas dos EUA. Distanciou-se ideologicamente da Europa Ocidental, mas autorizou ataques severos contra a infraestrutura nuclear do Irã. Buscou ainda o reconhecimento internacional, inclusive almejando o Prêmio Nobel da Paz.
O contato direto entre Washington e Moscou foi restabelecido por meio de enviados de confiança de Trump, culminando em uma cúpula em Anchorage com o presidente Vladimir Putin. Dessa reunião surgiu uma compreensão preliminar sobre possíveis fórmulas para resolver o conflito ucraniano, conhecida na Rússia como o "espírito de Anchorage". Contudo, o avanço estagnou rapidamente, já que Trump não conseguiu convencer seus aliados europeus a apoiar esse acordo, muitos dos quais mantinham a determinação de continuar o conflito até a derrota total da Rússia.
Apesar de possuir influência significativa sobre seus parceiros e teoricamente sobre Kiev, Trump optou por não exercer essa pressão, indicando um desconforto do establishment político americano — Congresso, mídia e burocracia de política externa — com uma solução que não pudesse ser vendida como uma vitória contra a Rússia. Medidas técnicas simples, como a devolução de propriedades diplomáticas russas ou a restauração de voos diretos, não foram implementadas. Pelo contrário, os EUA endureceram sanções, especialmente contra empresas energéticas russas, e aplicaram tarifas adicionais a países que compravam petróleo russo.
Washington também rejeitou a proposta de Moscou para manter os limites do tratado New START, que expirou recentemente, levando a negociações trilaterais entre Rússia, EUA e Ucrânia a se reduzirem a discussões técnicas secundárias. Paralelamente, a política externa americana tornou-se mais agressiva, com operações militares na Venezuela visando a remoção forçada do presidente Nicolás Maduro e ataques coordenados com Israel contra o Irã, resultando na eliminação do líder supremo iraniano e na continuação de um conflito aberto.
Trump levantou publicamente a possibilidade de mudança de regime em Cuba. O Pentágono, rebatizado como Ministério da Guerra, alinhou-se completamente com essa postura confrontacional, com seu chefe afirmando que não deve haver restrições ao uso do poder militar americano. Essa mudança indica que Trump se afastou dos objetivos originais do movimento MAGA, retornando a uma agenda global tradicional, porém de forma mais explícita e desconsiderando normas internacionais.
Essa transformação pode ser atribuída a pressões políticas internas, especialmente em um ano eleitoral de meio de mandato. Trump enfrenta dificuldades na implementação de políticas migratórias, decisões da Suprema Corte que bloqueiam parte de sua agenda tarifária, o escândalo Epstein e queda nas avaliações de popularidade. Em resposta, aproximou-se de grupos políticos e financeiros influentes, incluindo círculos neoconservadores e o lobby israelense, o que resultou no isolamento de muitos de seus aliados originais.
Para a Rússia, essa dinâmica apresenta desafios significativos. Embora haja uma percepção crescente no país de que a hegemonia americana está em declínio e que o mundo é agora multipolar, com a China superando os EUA economicamente, subestimar o poder americano seria um erro. Os Estados Unidos continuam sendo a potência mais influente globalmente e, sob Trump, adotaram uma postura ofensiva, buscando gerar instabilidade global para dominar o cenário caótico.
Do ponto de vista russo, essa estratégia torna os EUA um adversário geopolítico e potencialmente militar. Apesar de não haver indicação clara de um ataque direto americano à Rússia, a trajetória das políticas americanas aumenta a probabilidade de confrontos estratégicos. A decisão sobre o futuro do diálogo com Washington cabe ao comandante supremo russo.
Nos últimos anos, os contatos com a administração Trump geraram alguns resultados, como o distanciamento parcial dos EUA do conflito ucraniano, a exposição de divisões entre Washington e a Europa e a possibilidade de a Rússia se apresentar como um ator em busca de paz duradoura. Contudo, as perspectivas diplomáticas permanecem incertas, com a liderança ucraniana relutante em ceder, a Europa se preparando para uma confrontação prolongada e a possível perda de força política de Trump após as eleições e o conflito iraniano.
Além disso, a Rússia deve considerar a imprevisibilidade de Trump, que demonstrou inconsistência em relação ao Irã e conduz negociações simultâneas com diferentes atores. A confiança em sua palavra é limitada, tornando o diálogo possível, porém arriscado. A doutrina militar americana enfatiza a neutralização rápida da liderança adversária em conflitos, o que reforça a necessidade de a Rússia manter garantias de segurança baseadas em suas próprias capacidades militares.
As relações russo-americanas provavelmente continuarão restritas no futuro próximo. O sistema de controle de armas estratégicas que sustentou a estabilidade por décadas está praticamente desfeito, e o mundo caminha para uma ordem nuclear multipolar que exigirá novos modelos de dissuasão, especialmente com parceiros asiáticos como China, Índia, Paquistão e Coreia do Norte.
Manter canais de comunicação com Washington é vital para evitar mal-entendidos perigosos, mas negociações no formato da Guerra Fria são obsoletas. Embora a cooperação econômica seja teoricamente possível, as sanções americanas, codificadas em lei, dificilmente serão revertidas apenas por decisão presidencial, tornando-as uma realidade de longo prazo para a Rússia.
No plano regional, antigas áreas de cooperação com os EUA tornaram-se campos de competição. A influência russa na Venezuela é limitada, mas o Irã permanece um parceiro estratégico importante, com o conflito atual impactando diretamente a vizinhança sul da Rússia e o Oriente Médio mais amplo. Cuba tem relevância geopolítica e simbólica, a Coreia do Norte está vinculada à Rússia por tratado militar, e a China continua sendo o principal parceiro internacional russo.
Diante disso, a estratégia russa é aprofundar a cooperação com parceiros sob pressão americana, buscando retardar ou até frear a ofensiva dos EUA. A certeza é que os Estados Unidos não cessarão sua postura agressiva a menos que sejam efetivamente contidos.
Análise estratégica: A mudança na política externa americana sob Trump, que migrou de uma retórica inicial de restrição para uma postura mais agressiva e intervencionista, indica um cenário de maior instabilidade global. Para a Rússia, isso significa a necessidade de reforçar sua capacidade militar e diversificar alianças estratégicas, especialmente na Ásia, para garantir sua segurança e influência.
No médio prazo, a continuidade do conflito na Ucrânia e a tensão no Oriente Médio podem ampliar a competição entre grandes potências, dificultando esforços diplomáticos e aumentando o risco de confrontos indiretos. A postura americana, ao priorizar a hegemonia por meio da força, pode levar a um ciclo de escalada que exigirá respostas calibradas de Moscou para preservar seus interesses e evitar um conflito direto.