Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, e Xi Jinping, líder da China, têm encontro previsto em Washington nesta semana, em uma tentativa de administrar uma rivalidade que vai muito além das tarifas. A pauta reúne comércio, chips, minerais estratégicos e inteligência artificial, setores que afetam desde a indústria de automóveis até a capacidade de cada país de desenvolver tecnologias avançadas.
O encontro ainda não ocorreu, e não há resultado a antecipar. A reunião anterior dos dois líderes, em Pequim, em maio, não produziu resultados tangíveis. Trump disse que discutiria “tudo” com Xi, mas o ponto central é que Washington e Pequim seguem usando o comércio como instrumento de disputa estratégica.
Os Estados Unidos restringem a venda de chips de alto desempenho à China. Pequim, por sua vez, limita exportações de terras raras usadas na fabricação de semicondutores. Na prática, cada lado tenta reduzir a capacidade do outro de controlar tecnologias essenciais, enquanto preserva para si acesso a insumos e mercados. Scott Bessent, secretário do Tesouro americano, afirmou que autoridades dos dois países também discutiram um mecanismo para trocar informações sobre incidentes de segurança ligados à inteligência artificial. Por enquanto, trata-se de uma conversa relatada por Bessent, não de um acordo anunciado.
Mikko Huotari, diretor do instituto alemão MERICS, resumiu esse quadro como um impasse estratégico: Estados Unidos e China devem continuar contendo um ao outro no futuro previsível. Isso ajuda a explicar por que uma reunião entre os presidentes pode ser relevante mesmo sem grande acordo. Evitar que atritos comerciais e tecnológicos saiam de controle já é um objetivo concreto, mas não resolve a competição de fundo.
A Europa está no meio dessa disputa. Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia, afirmou que um segundo “choque da China” já chegou ao continente, impulsionado pelo avanço chinês em baterias, energia verde e mobilidade. A União Europeia quer acelerar a adoção de veículos elétricos, mas defende tarifas extras sobre carros chineses de baixo custo. A China rejeita a ideia de vantagem desleal, e Volkswagen e BMW se opõem às medidas por temerem retaliação. Bruxelas, portanto, precisa proteger parte de sua indústria sem abrir mão de uma transição que depende de produtos e tecnologias em que a China ganhou força.
O Canadá oferece um exemplo de como potências médias tentam ampliar suas opções. Mark Carney, primeiro-ministro canadense, defende maior cooperação entre países que não são as duas maiores potências e chama essa estratégia de “geometria variável”: alianças diferentes para problemas diferentes, guiadas por interesses e valores em comum. Após visitar a China no início do ano e acertar uma “parceria estratégica de nova era”, seu governo reduziu de 100% para 6,1% a tarifa sobre veículos elétricos chineses, com uma cota anual de 49 mil unidades.
Essa flexibilidade também traz riscos. Trump ameaçou aplicar tarifas severas ou interromper o comércio com a Europa se considerasse hostil uma proposta de associação do Canadá à União Europeia, que classificou como “ridícula”. O recado é que buscar alternativas a Washington pode gerar pressão americana, assim como uma aproximação com Pequim pode expor parceiros a disputas econômicas e políticas.
O que merece atenção em Washington não é apenas a possibilidade de um acordo imediato entre Trump e Xi. É saber se os dois lados conseguem estabelecer limites mínimos para uma disputa que já alcança comércio, cadeias de produção e inteligência artificial. Para Europa e Canadá, a questão paralela é quanto espaço terão para diversificar relações sem serem forçados a escolher um lado.
Crédito da imagem: European Communities / Wikimedia Commons (CC BY 4.0).