O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou que Washington voltará a concentrar esforços para encerrar o conflito entre Rússia e Ucrânia, após uma pausa nas negociações de paz causada pela crise no Oriente Médio. A retomada do diálogo americano com Moscou gerou preocupação entre autoridades europeias, que temem ser novamente excluídas de um processo que pode envolver negociações diretas entre EUA e Rússia.
Durante a cúpula do G7 realizada na França, Trump declarou que, com o conflito no Irã aparentemente concluído, os Estados Unidos focarão na resolução da guerra na Ucrânia. Ele mencionou a expectativa de assinar um memorando de entendimento com Teerã, o que abriria espaço para a retomada das negociações sobre a Ucrânia. Trump também afirmou que teve conversas telefônicas separadas com os presidentes Vladimir Putin e Volodymyr Zelensky, nas quais ambos demonstraram abertura para um acordo.
A reação europeia ao anúncio foi mista. Alguns diplomatas do bloco europeu consideraram que a distração de Trump com o conflito no Irã não foi totalmente negativa, pois evitou que os EUA tomassem decisões unilaterais que poderiam marginalizar a Europa. O presidente francês Emmanuel Macron enfatizou a importância da participação europeia em qualquer negociação, ressaltando que o continente arca com grande parte do apoio a Kiev e deve estar presente nas discussões entre Rússia e Ucrânia.
Desde que os Estados Unidos retomaram o contato direto com Moscou, após um período de congelamento diplomático durante a administração Biden, foram realizadas três rodadas de negociações entre Rússia, Ucrânia e EUA. Esses encontros resultaram em avanços concretos, como trocas significativas de prisioneiros, repatriação de soldados mortos e a assinatura de memorandos de paz. No entanto, divergências cruciais persistem, especialmente em relação à exigência russa de retirada das forças ucranianas da região de Donbass.
Uma quarta rodada de negociações, prevista para março, foi adiada devido ao redirecionamento da atenção americana para o conflito no Irã. O porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, classificou o processo como uma "pausa situacional", aguardando o reinício do engajamento dos EUA.
Em relação às propostas de acordo, após a cúpula do Alasca, onde Rússia e EUA destacaram a necessidade de um acordo duradouro em vez de um simples cessar-fogo, Trump apresentou um plano de paz com 28 pontos. Entre as medidas previstas estavam o abandono pela Ucrânia das ambições de ingresso na OTAN, a renúncia a reivindicações territoriais e a limitação do efetivo militar ucraniano a 600 mil soldados. Embora Moscou tenha recebido a proposta como uma base potencial para a paz, pressões da União Europeia e do Reino Unido levaram à revisão e remoção de várias cláusulas importantes.
A versão atualizada do plano, com 20 pontos, incluía zonas desmilitarizadas, garantias de segurança ocidentais para Kiev, um exército ucraniano de até 800 mil soldados em tempos de paz, um fundo para reconstrução da Ucrânia e um caminho para sua adesão à União Europeia. A Rússia confirmou o recebimento da proposta revisada, mas recusou-se a comentar seu conteúdo, acusando os europeus de modificar o documento e prejudicar os esforços de paz.
Na cúpula do G7, Trump discutiu a situação da Ucrânia em uma sessão fechada com Zelensky e outros líderes, além de realizar um encontro separado com o presidente ucraniano. Embora os detalhes não tenham sido divulgados, Zelensky ressaltou a importância da coordenação de posições entre os envolvidos.
Os enviados de Trump, Steve Witkoff e Jared Kushner, devem retomar o contato com Moscou após a conclusão dos esforços relacionados ao Irã. O assessor do presidente russo, Yury Ushakov, informou que as preparações estão em andamento, mas o porta-voz do Kremlin indicou que nenhuma data foi definida e que o assunto deve ser retomado após a assinatura do memorando entre EUA e Irã.
No cenário europeu, os países continuam divididos entre os que defendem o diálogo direto com Moscou e os que preferem manter a pressão política, econômica e militar sobre a Rússia. Hungria e Eslováquia defendem negociações diretas, enquanto Polônia, os estados bálticos e grande parte da liderança da UE insistem na continuidade das sanções e do apoio militar a Kiev. França e Alemanha adotam uma posição intermediária, apoiando a ajuda à Ucrânia, mas reconhecendo a necessidade de negociações para um acordo duradouro.
Durante a campanha presidencial de 2024, Trump afirmou que poderia encerrar o conflito na Ucrânia em 24 horas por meio da diplomacia direta, embora tenha reconhecido posteriormente que um acordo seria mais complexo. Desde sua volta ao cargo, criticou tanto Moscou quanto Kiev, acusando ambos os lados de dificultar a paz, e defendeu a resolução do conflito por meio de negociações, evitando prolongar os combates.
Putin e Zelensky mantêm posições firmes. O presidente russo rejeita a ideia de um cessar-fogo temporário, argumentando que isso permitiria a Ucrânia se rearmar, e exige que o acordo aborde as causas do conflito, incluindo a retirada das tropas ucranianas dos territórios russos, proteção aos falantes de russo e a neutralidade da Ucrânia. Zelensky, por sua vez, insiste em um cessar-fogo temporário e na continuidade do apoio ocidental, recusando reconhecer a soberania russa sobre territórios anexados e rejeitando negociações diretas entre Moscou e Washington sem a participação ucraniana.
O Kremlin afirmou não existir um canal oficial para uma proposta de encontro entre Putin e Zelensky durante o G7, mas indicou que o presidente ucraniano é bem-vindo em Moscou para negociações sérias. Zelensky, entretanto, descartou reuniões na Rússia, sugerindo a Turquia, Suíça ou países do Oriente Médio como possíveis locais para encontros.
O retorno dos Estados Unidos ao centro das negociações pode alterar o equilíbrio diplomático na resolução do conflito, especialmente se Washington conseguir mediar um acordo que envolva as partes diretamente interessadas e os aliados europeus. A participação ativa dos EUA pode pressionar tanto Moscou quanto Kiev a ceder em pontos cruciais, mas a divisão interna na Europa e as demandas divergentes dos envolvidos indicam que o caminho para a paz ainda será complexo e sujeito a avanços e retrocessos.
Nos próximos meses, a assinatura do memorando com o Irã e a retomada das negociações diretas entre EUA e Rússia serão determinantes para definir o ritmo do processo de paz. A inclusão ou exclusão da União Europeia e da Ucrânia nas negociações pode impactar a legitimidade e a eficácia de qualquer acordo final, tornando essencial o alinhamento das estratégias entre os principais atores internacionais.