O presidente ucraniano, Volodymyr Zelenskyy, afirmou em 4 de outubro que a Ucrânia aceita uma proposta dos Estados Unidos para conversas técnicas com a Rússia até o fim do mês. Kiev está aberta aos Emirados Árabes Unidos ou a outro local indicado por Washington. Ainda aguarda, porém, uma resposta de Moscou.
O anúncio vem depois de uma retomada dos contatos americanos. O Axios havia relatado uma paralisação dos esforços de mediação desde meados de fevereiro. Entre 4 e 6 de setembro, os enviados dos EUA Steve Witkoff e Jared Kushner visitaram Moscou e Kiev para continuar o diálogo, segundo registro da Casa Branca. As visitas mostram que os contatos voltaram a ocorrer; não significam que os três países tenham marcado uma nova reunião.
As declarações russas de setembro ajudam a medir essa distância. Em 7 de setembro, Dmitry Peskov, porta-voz do Kremlin, disse que Moscou não descartava retomar o formato trilateral, mas considerava cedo discutir data ou local. Mais tarde, em 23 de setembro, o Kremlin dizia que as condições para retomar conversas de paz não estavam reunidas e que não havia perspectiva imediata de uma reunião de alto nível. Nenhuma das duas posições é uma aceitação da proposta anunciada por Zelenskyy em outubro.
Há, contudo, temas concretos que já apareceram nas discussões. Em entrevista de 23 de setembro, Zelenskyy descreveu propostas americanas para uma trégua recíproca nos ataques à infraestrutura energética, a reabertura do corredor de grãos no Mar Negro e uma reunião trilateral. Ele disse preferir que a trégua energética estivesse entre os primeiros resultados. Isso não estabelece a pauta das conversas técnicas agora propostas.
Uma trégua desse tipo trataria de ataques de ambos os lados a uma categoria específica de alvos. A proposta para os grãos, por sua vez, trataria da rota marítima de exportação. São assuntos sobre os quais se pode discutir medidas delimitadas sem, necessariamente, resolver de imediato onde terminaria a linha de frente.
Essa última questão continua a separar as posições públicas. Kushner afirmou que a linha pretendida por Vladimir Putin exigiria que a Ucrânia se retirasse de território. Zelenskyy rejeita essa retirada e defende interromper o combate na linha de frente atual, com garantias de segurança. Parar onde cada força está e exigir que uma delas recue antes são propostas diferentes para o mesmo mapa.
A disposição de Kiev, portanto, abre uma possibilidade de contato, não uma negociação já acertada nem uma trégua. Energia e grãos ajudam a visualizar o alcance de medidas específicas; a disputa territorial mostra por que elas, mesmo se vierem a ser discutidas, não equivalem a um acordo para encerrar a guerra.