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domingo, 04 de janeiro de 2026
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Ucrânia denuncia uso de crianças transferidas forçadamente pela Rússia como moeda de negociação

Mais de 20 mil crianças ucranianas foram transferidas à força para a Rússia desde 2022; esforços internacionais buscam retorno e responsabilização dos envolvidos.

Ucrânia denuncia uso de crianças transferidas forçadamente pela Rússia como moeda de negociação

Desde o início da invasão em larga escala da Ucrânia pela Rússia, em 2022, mais de 20 mil crianças ucranianas foram transferidas de maneira forçada para território russo. Esse processo teve início ainda em 2014, com a ocupação de partes do território ucraniano, mas foi intensificado com a escalada do conflito. Durante os primeiros meses da invasão, a violência e o caos resultaram na separação de famílias e no afastamento das instituições de cuidado infantil do controle das autoridades ucranianas.

As autoridades russas alegam que essas transferências foram realizadas sob o pretexto de evacuações humanitárias para proteger as crianças. Contudo, investigações internacionais indicam que muitos desses deslocamentos ocorreram sem o consentimento dos pais ou responsáveis legais, configurando uma violação do direito internacional humanitário. Este proíbe a transferência forçada de pessoas protegidas em territórios ocupados, exceto em casos de evacuação temporária necessária para garantir a segurança da população, que deve preservar a unidade familiar e garantir o retorno imediato após o fim dos combates.

A situação dessas crianças é dramática. Muitas delas são submetidas a rotinas rígidas em centros de reabilitação, onde são obrigadas a estudar em russo, realizar tarefas domésticas e participar de treinamentos militares. Um caso emblemático é o de Lesya, uma adolescente de 15 anos que foi retirada de sua vila na região de Kherson e enviada a um centro em Feodósia, na Crimeia. Ela permaneceu sob vigilância constante, com janelas que não podiam ser abertas, e somente retornou ao convívio familiar após esforços de organizações não governamentais ucranianas.

Apesar de casos como o de Lesya, a maioria das crianças permanece afastada de suas famílias. Apenas cerca de 2 mil crianças conseguiram retornar à Ucrânia graças à atuação conjunta de ONGs, do governo ucraniano e de mediadores internacionais. A pressão por parte de instituições globais tem aumentado, mas o progresso é lento.

Em março de 2023, o Tribunal Penal Internacional emitiu mandados de prisão contra o presidente russo Vladimir Putin e a comissária para os Direitos da Criança Maria Lvova-Belova, acusados de deportação ilegal de crianças ucranianas. Em julho de 2025, o Tribunal Europeu dos Direitos Humanos responsabilizou a Rússia por violações de direitos humanos relacionadas à remoção organizada de crianças e exigiu cooperação para criar mecanismos de localização e retorno seguro.

Mais recentemente, em março de 2026, a Comissão Internacional Independente de Inquérito da ONU sobre a Ucrânia concluiu que a deportação e transferência forçada de crianças ucranianas pela Rússia configuram crimes contra a humanidade, resultado de uma política sistemática planejada nos mais altos níveis do governo russo.

Em resposta, a União Europeia sancionou 16 indivíduos e sete entidades relacionadas a essas ações, enquanto o Reino Unido aplicou sanções a 29 pessoas e organizações. Países como Estados Unidos, Canadá, Austrália, Japão e Suíça também adotaram medidas semelhantes. No total, mais de 130 pessoas e entidades foram alvo de sanções por envolvimento na deportação, assimilação forçada, doutrinação, militarização e adoção ilegal de crianças ucranianas.

A ausência de avanços significativos tem levado famílias a recorrer a missões arriscadas para tentar recuperar seus filhos, muitas vezes organizadas por ONGs ucranianas. Essas operações não deveriam ser necessárias, uma vez que o direito internacional humanitário obriga a Rússia a identificar, registrar e facilitar a reunificação familiar, além de permitir o acesso de agentes neutros para assistência às crianças.

Com a estagnação das negociações para o fim do conflito e a diminuição da atenção internacional sobre a Ucrânia, é urgente que o tema das crianças transferidas forçadamente volte ao centro do debate global. Para isso, é fundamental ampliar os esforços em três frentes principais: a criação e financiamento de um mecanismo abrangente de rastreamento dessas crianças; o fortalecimento das ações legais contra os responsáveis, incluindo processos coordenados em países que aplicam o princípio da jurisdição universal; e a implementação rigorosa das sanções e restrições comerciais já estabelecidas contra a Rússia.

Embora relatos de reencontros familiares sejam animadores, representam uma pequena fração do total de crianças ainda separadas e submetidas a processos de assimilação e militarização. É imprescindível que a questão do retorno dessas crianças não seja usada como moeda de troca nas negociações de paz ou relegada a segundo plano diante de outras prioridades internacionais.

Cada dia que passa representa uma perda irreparável para a identidade nacional e o bem-estar dessas crianças, que crescem em ambientes hostis longe de suas famílias. O direito fundamental de estar com seus entes queridos não pode ser adiado. A comunidade internacional deve intensificar a pressão para garantir que a Rússia cumpra suas obrigações legais e devolva essas crianças ao seu país e às suas famílias o mais breve possível.