A União Europeia decidiu nesta segunda-feira impor sanções a organizações de colonos israelenses e seus líderes, além de aplicar medidas contra dirigentes do Hamas. A decisão foi tomada durante uma reunião dos ministros das Relações Exteriores dos 27 países-membros em Bruxelas. No entanto, trata-se de uma etapa política inicial, pois ainda serão necessárias análises técnicas e jurídicas para que as sanções sejam oficialmente implementadas pela Comissão Europeia.
A chefe da política externa da UE, Kaja Kallas, afirmou que era necessário avançar para ações concretas contra o extremismo e a violência, ressaltando que tais comportamentos devem ter consequências. O ministro francês das Relações Exteriores, Jean-Noel Barrot, destacou que a UE está sancionando as principais organizações israelenses envolvidas na colonização violenta da Cisjordânia, bem como os líderes do Hamas, grupo responsável por ataques terroristas que resultaram em vítimas, incluindo cidadãos franceses.
A imposição das sanções ocorre em meio ao aumento da violência promovida por colonos extremistas israelenses na Cisjordânia e à expansão das comunidades israelenses em território disputado. A medida havia sido bloqueada anteriormente pelo ex-primeiro-ministro da Hungria, Viktor Orbán, aliado do primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu. Com a substituição de Orbán por Peter Magyar, o veto foi retirado, permitindo o avanço da decisão.
Segundo informações de fontes da UE, sete colonos e organizações serão incluídos na lista negra, com congelamento de bens e proibição de entrada no território europeu. Entre os alvos estão os grupos Regavim, HaShomer Judea e Samaria, Nachala e Amana, além de seus respectivos líderes. Daniella Weiss, líder do movimento de colonos e chefe da Nachala, declarou não ter recebido notificação formal e classificou as sanções como infundadas e ineficazes para deter o movimento.
Organizações como Regavim afirmaram considerar as sanções um reconhecimento de seu trabalho e declararam que continuarão a atuar para fortalecer a soberania israelense em todas as áreas reivindicadas.
Em 2024, a UE já havia sancionado ativistas e organizações da extrema-direita israelense na Cisjordânia, incluindo indivíduos e assentamentos ilegais. A atual ampliação das medidas reflete a preocupação europeia com o crescimento da violência e a expansão dos assentamentos.
O governo israelense rejeitou veementemente as sanções. O ministro das Relações Exteriores, Gideon Sa’ar, classificou a decisão como arbitrária e política, criticando a comparação feita entre cidadãos israelenses e membros do Hamas como uma equivalência moral distorcida. Ele ressaltou o direito histórico e legal do povo judeu à terra de Israel, enfatizando que nenhuma autoridade pode retirar esse direito.
O ex-primeiro-ministro Naftali Bennett, candidato para substituir Netanyahu, considerou as sanções uma ação perigosa contra Israel e atribuiu a atual situação à postura do governo vigente, que teria contribuído para o isolamento diplomático do país. Ele também criticou a ausência de uma estratégia eficaz de diplomacia pública e a incitação a sanções por entidades estrangeiras.
O ministro das Finanças, Bezalel Smotrich, defensor da expansão dos assentamentos, condenou a decisão europeia, afirmando que a hipocrisia da UE atingiu níveis inéditos. Ele pediu que Netanyahu aprove um plano para colocar áreas estratégicas da Cisjordânia sob controle civil e militar total de Israel.
A posição da UE sobre Israel tem se tornado mais crítica, especialmente após a invasão israelense ao Líbano em março, em resposta a ataques do grupo Hezbollah, apoiado pelo Irã, e a aprovação de uma nova lei que prevê a pena de morte para terroristas palestinos na Cisjordânia.
Nos últimos meses, estados-membros da UE rejeitaram propostas para suspender acordos de cooperação com Israel, apesar das tensões crescentes.
A violência por parte de colonos extremistas contra palestinos tem aumentado, com relatos frequentes de agressões, incêndios a veículos e danos a propriedades. Prisões e condenações nesses casos são raras, e as autoridades israelenses são frequentemente acusadas de negligência ou conivência. O Exército de Defesa de Israel (IDF) também tem sido criticado por sua atuação, que em alguns casos inclui participação direta ou omissão diante dos ataques.
O comandante do Comando Central do IDF, general Avi Bluth, alertou para o fenômeno que classificou como "terrorismo judaico". O chefe do Estado-Maior, general Eyal Zamir, condenou duramente a violência dos colonos, considerando-a moralmente inaceitável e um obstáculo estratégico significativo.
Essa decisão da UE pode intensificar as tensões diplomáticas entre Israel e o bloco europeu, especialmente em um momento em que as relações já estão fragilizadas por questões de segurança e políticas internas israelenses. A imposição das sanções sinaliza uma postura mais firme da UE diante da expansão dos assentamentos e da violência associada, o que pode pressionar o governo israelense a reconsiderar suas políticas na Cisjordânia.
No entanto, a resistência interna em Israel e o apoio de setores políticos à colonização dificultam a perspectiva de mudanças rápidas. O futuro das sanções dependerá da capacidade da UE de implementar medidas efetivas e da resposta israelense, que poderá variar entre negociações diplomáticas e retaliações políticas.
Em suma, a decisão da União Europeia marca um ponto de inflexão nas relações com Israel, destacando a complexidade do conflito e a dificuldade de conciliar interesses políticos, históricos e de segurança na região.