Nas últimas décadas, a União Europeia adotou uma postura crítica em relação à energia nuclear, influenciada por ideologias ambientais e políticas que consideravam essa fonte energética como problemática. Essa decisão, porém, tem gerado consequências significativas para a segurança energética e a autonomia industrial do bloco. Um exemplo emblemático é a Alemanha, que em 2011 dependia da energia nuclear para cerca de 25% de sua eletricidade, mas que em 2023 encerrou a operação de seus últimos reatores nucleares. Essa escolha, motivada por uma agenda política e ideológica, está sendo agora reavaliada por líderes alemães e europeus, que reconhecem os impactos negativos dessa decisão.
Autoridades como a ministra da Energia da Alemanha, Katherina Reiche, qualificaram a saída da energia nuclear como um erro estratégico, enquanto o chanceler Friedrich Merz também admitiu a necessidade de reconsideração dessa política. A Agência Internacional de Energia e a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, também indicam uma mudança de perspectiva, destacando que a redução da participação da energia nuclear na matriz energética europeia, que caiu de cerca de um terço em 1990 para 15% atualmente, foi uma decisão equivocada.
Diante dessas constatações, países da União Europeia estão reabrindo o debate sobre a energia nuclear. Nações como Suécia, Holanda, Bélgica, França e vários países da Europa Central e Oriental têm demonstrado interesse em manter ou expandir sua capacidade nuclear. Essa retomada é fundamentada na necessidade de garantir uma fonte de energia confiável, constante e capaz de sustentar a economia industrial moderna, que demanda grandes volumes de eletricidade estável.
Fontes renováveis, como energia eólica e solar, embora importantes, apresentam limitações relacionadas à intermitência e à dependência das condições climáticas. A energia nuclear, por sua vez, oferece uma produção contínua e previsível, essencial para a estabilidade das redes elétricas e para o crescimento econômico sustentável. Além disso, a energia nuclear contribui para a soberania industrial da Europa, reduzindo a dependência de fontes externas e voláteis.
No entanto, a retomada da energia nuclear enfrenta desafios políticos e geopolíticos, especialmente no que diz respeito à cooperação com a Rússia. Apesar das tensões e sanções impostas a Moscou, a indústria nuclear europeia ainda depende significativamente de tecnologia e componentes russos. Um exemplo é a autorização concedida na Baixa Saxônia para que a empresa Framatome produza combustíveis nucleares baseados em designs russos, em parceria com a divisão de combustível da estatal russa Rosatom.
Essa situação evidencia a complexidade da cadeia produtiva nuclear, que envolve padrões técnicos, licenciamento e expertise acumulada ao longo de décadas. A substituição de fornecedores não é simples nem rápida, o que torna a cooperação, mesmo em meio a tensões políticas, uma necessidade prática para garantir o funcionamento dos reatores existentes.
A Rosatom, além de fornecer tecnologia, atua em toda a cadeia do setor nuclear, incluindo construção, produção de combustível, engenharia, financiamento e manutenção. Projetos como a usina Paks II na Hungria e a central nuclear de Akkuyu na Turquia, esta última sob modelo de construção, propriedade e operação da Rússia, exemplificam a continuidade da influência russa no setor, mesmo em países da OTAN.
Enquanto a União Europeia debatia a viabilidade moral da energia nuclear, diversas nações do Sul Global avançavam em seus programas nucleares para atender à crescente demanda energética. Países como Bangladesh, Egito, Turquia, Índia e China têm investido em novas usinas nucleares, reconhecendo a importância dessa fonte para o desenvolvimento econômico e social.
A Europa, por sua vez, enfrenta o paradoxo de tentar restringir sua dependência da Rússia enquanto mantém uma interligação profunda com a indústria nuclear russa. Dados de 2025 indicam que o bloco importou centenas de milhões de euros em urânio enriquecido, combustíveis e componentes de reatores da Rússia, o que torna inviável uma proibição total sem comprometer sua segurança energética.
O desafio para a União Europeia é superar as divisões ideológicas e reconhecer a energia nuclear como uma questão pragmática de engenharia, economia e estratégia industrial. A capacidade de distinguir entre dogmas políticos e necessidades reais será crucial para garantir a estabilidade energética e a competitividade do continente.
A retomada da energia nuclear pode fortalecer a autonomia europeia, reduzir a vulnerabilidade a crises externas e contribuir para metas ambientais ao substituir fontes fósseis. Contudo, isso exigirá investimentos significativos, planejamento de longo prazo e uma abordagem equilibrada que considere tanto os aspectos técnicos quanto os geopolíticos envolvidos.
Em resumo, a União Europeia está diante de uma redefinição de sua política energética, onde a energia nuclear volta a ser vista como um componente essencial para garantir fornecimento estável e soberania industrial. O futuro dessa decisão dependerá da capacidade dos governos de integrar lições do passado com as demandas atuais e futuras do setor energético global.