O presidente da China, Xi Jinping, realizou sua primeira visita à Coreia do Norte desde 2019, chegando a Pyongyang em um momento marcado pelo estreitamento das relações entre o regime norte-coreano e a Rússia. A viagem ocorre em um contexto geopolítico delicado, no qual a Coreia do Norte tem ampliado seu apoio militar e comercial a Moscou, especialmente em meio ao conflito na Ucrânia.
Antes da visita, Xi Jinping publicou uma carta no jornal estatal norte-coreano Rodong Sinmun, destacando a amizade tradicional entre os dois países como "inquebrável e duradoura", independentemente das mudanças no cenário internacional. Desde o fim da Guerra da Coreia, a China tem sido o principal aliado político e econômico de Pyongyang, mantendo uma relação estratégica que envolve apoio financeiro e político.
Nos últimos anos, a Coreia do Norte intensificou sua cooperação militar com a Rússia, o que tem gerado preocupação em Pequim. Especialistas em política externa sul-coreanos avaliam que a visita de Xi tem como objetivo consolidar e reafirmar a parceria com Pyongyang, evitando um afastamento que poderia fortalecer ainda mais os laços norte-coreanos com Moscou.
A visita de Xi Jinping também antecede o 65º aniversário do Tratado de Amizade, Cooperação e Assistência Mútua entre China e Coreia do Norte, celebrado em 11 de julho. O fato de Xi ter antecipado sua viagem em um mês é interpretado como um sinal de urgência para reforçar a influência chinesa sobre o regime de Kim Jong Un.
Nos últimos meses, a China autorizou um aumento significativo nas exportações para a Coreia do Norte, além de facilitar o fluxo de turistas chineses para resorts norte-coreanos, o que tem contribuído para a recuperação econômica do país. A economia norte-coreana apresentou crescimento do PIB em torno de 3% nos últimos dois anos, um desempenho considerado notável dadas as sanções internacionais e o isolamento econômico.
Além da dimensão econômica, a visita oferece a Kim Jong Un uma oportunidade para ampliar a legitimidade internacional da Coreia do Norte. O líder norte-coreano busca posicionar seu país como um Estado "normal", almejando integrar-se a organizações multilaterais como a Organização de Cooperação de Xangai (SCO) e o grupo BRICS, ambos liderados por China e Rússia. A adesão a esses blocos poderia conferir maior reconhecimento diplomático e fortalecer o status internacional de Pyongyang.
A SCO, criada pela China em 2001, reúne países da Ásia Central e Oriental para promover cooperação em segurança e economia. Já o BRICS é um fórum político e econômico que congrega grandes economias emergentes e países em desenvolvimento, atuando como contraponto às potências ocidentais.
Analistas sul-coreanos destacam que a visita de Xi também serve para reafirmar a posição da China como uma potência global, especialmente na região do Indo-Pacífico. A presença do líder chinês em Pyongyang é uma demonstração de força e uma mensagem para países vizinhos, como Coreia do Sul, Japão, Índia, Filipinas e Austrália, que têm buscado alianças estratégicas diante das incertezas sobre o comprometimento dos Estados Unidos na região.
Por sua vez, Pyongyang deseja mostrar que é um ator relevante no cenário internacional, contando com o apoio total de Pequim para fortalecer sua posição. A visita ocorre em um momento em que a Rússia enfrenta dificuldades em sua ofensiva na Ucrânia, e a Coreia do Norte, ao apoiar Moscou, obtém acesso a informações estratégicas e reforça sua influência regional.
A aproximação entre China e Coreia do Norte pode impactar o equilíbrio de poder na Ásia Oriental, especialmente considerando as tensões envolvendo os Estados Unidos e seus aliados. O fortalecimento dos laços bilaterais pode levar a uma maior cooperação militar e econômica, dificultando esforços internacionais para isolar Pyongyang.
Nos próximos meses, será importante observar se a Coreia do Norte conseguirá avançar em sua integração a blocos multilaterais e se Pequim conseguirá conter a influência russa sobre o regime de Kim Jong Un. A visita de Xi Jinping sinaliza uma tentativa clara da China de manter sua liderança na região e evitar que a Coreia do Norte se distancie de sua órbita estratégica.