Durante décadas, Israel contou com uma garantia fundamental para manter sua superioridade militar no Oriente Médio: bilhões de dólares enviados anualmente pelos Estados Unidos. Esse dinheiro ajudou a financiar caças, armamentos avançados e sistemas de defesa capazes de interceptar mísseis inimigos. Mas, nesta terça-feira (3), Donald Trump surpreendeu ao anunciar que Washington pretende encerrar essa assistência financeira a partir de 2027. O momento escolhido para a declaração, entretanto, levanta uma pergunta: por que alterar um compromisso estratégico justamente agora, em meio a eleições nos dois países e a uma guerra contra o Irã?
O anúncio aconteceu durante uma entrevista à Fox News, na manhã em que os americanos votavam para renovar a Câmara dos Representantes e parte do Senado. Trump afirmou ter chegado a um entendimento com o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, meses antes, alegando que Israel se tornou suficientemente desenvolvido para financiar sua própria defesa. O presidente também garantiu que os Estados Unidos continuarão vendendo armamentos ao aliado e poderão ajudá-lo caso seja necessário.
A declaração provocou surpresa em Israel. Integrantes da administração financeira israelense disseram à imprensa que não esperavam uma interrupção antecipada dos repasses. Afinal, existe um acordo assinado entre os dois países que prevê a continuidade da assistência até setembro de 2028. Netanyahu não havia confirmado publicamente os termos anunciados por Trump até a noite desta terça-feira.
Para entender o tamanho dessa mudança, porém, é necessário descobrir o que realmente está por trás desses bilhões de dólares.
O dinheiro americano que sustenta parte da defesa israelense Em 2016, durante o governo de Barack Obama, Estados Unidos e Israel assinaram um memorando de entendimento que estabeleceu US$ 38 bilhões em assistência militar ao longo de dez anos, entre os exercícios fiscais de 2019 e 2028. O compromisso representa aproximadamente US$ 3,8 bilhões anuais, divididos entre duas finalidades principais.
A maior parcela, de US$ 3,3 bilhões, pertence a um programa de financiamento militar estrangeiro. Na prática, Washington disponibiliza recursos para Israel adquirir equipamentos de defesa, principalmente de fabricantes americanos. Outros US$ 500 milhões anuais são destinados à cooperação em sistemas antimísseis, incluindo tecnologias utilizadas por Israel para proteger seu território de foguetes e mísseis.
Isso revela um aspecto pouco conhecido dessa relação: a ajuda não representa simplesmente uma transferência de dinheiro para o governo israelense gastar livremente. Grande parte dos recursos precisa retornar aos Estados Unidos por meio de compras realizadas junto à indústria militar americana. Empresas que fabricam aeronaves, mísseis e equipamentos eletrônicos também se beneficiam do acordo.
Em outras palavras, os Estados Unidos financiam parte da defesa israelense enquanto mantêm encomendas para sua própria indústria de armamentos. Israel recebe acesso a equipamentos sofisticados, e Washington fortalece tanto um aliado estratégico quanto empresas nacionais.
Por isso, o eventual fim dos repasses não afetaria apenas Israel. Fabricantes americanos também poderiam perder negócios caso o governo israelense reduzisse suas compras.
Por que Trump anunciou isso no dia das eleições? A explicação apresentada pelo próprio presidente envolve uma mudança no ambiente político americano. Desde o início da guerra em Gaza, em 2023, o apoio financeiro e militar dos Estados Unidos a Israel passou a enfrentar críticas crescentes, especialmente entre eleitores democratas. Uma pesquisa divulgada em outubro pela ABC News, em parceria com o Washington Post e a Ipsos, apontou que 58% dos americanos defendiam reduzir ou encerrar a assistência militar ao país.
O assunto também ganhou espaço entre setores da direita americana que questionam os custos das intervenções militares no exterior. Parte desses grupos cobra que Washington concentre mais recursos em necessidades internas, principalmente depois dos gastos e das consequências econômicas associados à guerra contra o Irã.
Trump reconheceu que a assistência a Israel se tornou um argumento utilizado contra os republicanos. Durante a entrevista, mencionou especificamente Abdul El-Sayed, candidato democrata ao Senado pelo estado de Michigan, que critica a manutenção de ajuda militar incondicional ao governo israelense.
O detalhe é significativo. Michigan é um dos estados politicamente disputados dos Estados Unidos, e a política americana para o Oriente Médio se tornou um tema importante entre diferentes grupos de eleitores. Ao anunciar que pretende encerrar os pagamentos, Trump procura retirar do debate uma das críticas dirigidas ao apoio republicano a Israel.
Entretanto, não existem evidências suficientes para afirmar que o anúncio foi motivado exclusivamente pelas eleições. As discussões sobre uma redução gradual da assistência já aconteciam anteriormente. O que chama atenção é a coincidência entre a divulgação de um suposto acordo negociado meses atrás e o momento em que o futuro controle do Congresso estava sendo decidido.
Netanyahu também enfrenta uma situação delicada A declaração americana ganhou outra dimensão porque Israel realizou eleições parlamentares em 27 de outubro, apenas uma semana antes. O bloco político liderado por Benjamin Netanyahu conquistou 53 das 120 cadeiras do Parlamento, conhecido como Knesset. Embora tenha terminado à frente dos adversários, ficou abaixo das 61 cadeiras necessárias para formar uma maioria.
A oposição liderada por Gadi Eisenkot conquistou 48 cadeiras, enquanto partidos árabes ficaram com outras 19. O resultado abriu uma disputa pela formação do próximo governo, deixando Netanyahu politicamente pressionado e dependente de negociações com outras forças parlamentares.
Foi nesse ambiente que Trump anunciou a intenção de interromper os repasses. Eisenkot reagiu criticando a condução do primeiro-ministro, especialmente porque autoridades de segurança e a população israelense tomaram conhecimento de uma possível mudança estratégica por meio da imprensa.
Mas existe uma contradição interessante: o próprio Netanyahu já havia defendido publicamente que Israel deveria reduzir sua dependência da assistência americana. Em janeiro, ele mencionou a intenção de diminuir gradualmente os repasses ao longo da próxima década. Em outubro, voltou a alertar que o país não deveria contar indefinidamente com o mesmo nível de financiamento.
A diferença está no prazo. Uma redução planejada durante vários anos permitiria reorganizar investimentos e preparar o orçamento militar. Encerrar os repasses já no fim de 2026, como anunciou Trump, exigiria uma adaptação muito mais rápida.
O que Israel realmente pode perder? Israel possui uma das indústrias militares mais desenvolvidas do mundo. O país fabrica drones, radares, munições, veículos blindados e tecnologias avançadas de defesa aérea. Também exporta armamentos para diferentes regiões, incluindo Europa e Ásia. Portanto, a interrupção da ajuda americana não significaria automaticamente que suas Forças Armadas deixariam de funcionar.
O problema está no custo de preservar suas capacidades. Sistemas como o Iron Dome, utilizado para interceptar foguetes de curto alcance, e os programas David's Sling e Arrow, voltados à defesa contra ameaças de maior alcance, envolvem investimentos elevados, desenvolvimento tecnológico e cooperação com empresas americanas. Além disso, Israel utiliza aeronaves de combate como o F-35, cuja aquisição e manutenção dependem de uma cadeia internacional de fornecimento.
Se os recursos americanos forem efetivamente interrompidos, o governo israelense poderá precisar direcionar uma parcela maior de seu próprio orçamento para comprar equipamentos e financiar programas militares. Isso poderá exigir mudanças nas prioridades de defesa, adiamento de aquisições ou busca por novas formas de cooperação industrial.
Existe também um risco estratégico. Em um cenário de conflitos prolongados, a reposição de mísseis interceptadores, munições e componentes militares se torna especialmente importante. Mesmo um país tecnologicamente avançado pode enfrentar dificuldades quando precisa sustentar operações de grande intensidade durante muito tempo.
Ainda assim, é necessário fazer uma distinção fundamental: Trump não anunciou um embargo de armas contra Israel. Washington pretende continuar autorizando vendas, o que significa que Israel poderá adquirir equipamentos americanos utilizando seus próprios recursos. O que está em discussão não é necessariamente o fim da cooperação militar, mas quem pagará por ela.
O corte pode realmente acontecer em 2027? Apesar da declaração de Trump, a execução da medida enfrenta obstáculos políticos e jurídicos. O acordo de assistência firmado em 2016 permanece previsto até setembro de 2028. Embora esse memorando não seja um tratado juridicamente obrigatório, o Congresso americano aprovou legislação que autoriza o financiamento e participa diretamente da liberação anual dos recursos.
Isso significa que o presidente não controla sozinho todos os mecanismos necessários para interromper a assistência. Mudanças no orçamento poderão depender da Câmara, do Senado e de negociações com o governo israelense.
Nos bastidores, também existem discussões sobre substituir gradualmente o modelo de financiamento por uma parceria mais ampla de desenvolvimento tecnológico e produção militar conjunta. Nesse cenário, Estados Unidos e Israel poderiam aprofundar projetos industriais, pesquisas e fabricação de novos sistemas de defesa, com uma relação menos dependente de transferências financeiras anuais.
Essa alternativa, entretanto, também provoca debates sobre o controle de tecnologias sensíveis, propriedade intelectual e a autonomia das indústrias militares dos dois países. O anúncio desta terça-feira, portanto, ainda deixa perguntas fundamentais sem resposta: quais programas serão atingidos, como ocorrerá a transição e se o Congresso aceitará modificar um compromisso que deveria continuar por mais dois anos.
Uma aliança que pode mudar de formato Durante décadas, a assistência militar americana funcionou como um dos pilares da relação estratégica entre Washington e Tel Aviv. Ela ajudou a assegurar a superioridade tecnológica israelense, fortaleceu a indústria de defesa dos Estados Unidos e consolidou a presença americana no Oriente Médio.
Agora, essa relação enfrenta pressões diferentes. Nos Estados Unidos, a ajuda a Israel passou a ter um custo político mais elevado. Em Israel, cresce o debate sobre a necessidade de ampliar a autonomia militar, justamente quando o país enfrenta ameaças regionais e uma situação política interna indefinida.
O anúncio de Trump não representa, por si só, o rompimento dessa parceria. Os dois países continuam compartilhando interesses militares, tecnologias e preocupações estratégicas. Mas a possibilidade de encerrar um financiamento mantido por décadas aponta para uma mudança importante na maneira como essa cooperação poderá funcionar.
A questão mais relevante talvez não seja apenas quanto dinheiro Israel deixará de receber. É saber se os Estados Unidos estão encerrando uma ajuda financeira ou começando a transformar profundamente uma de suas alianças militares mais importantes.